Plantas Medicinais do Nordeste

A valorização do conhecimento popular de plantas e ervas medicinais pode ser utilizada não só para recuperar a saúde, mas também para a recuperação da cidadania. É nisso que acredita quem trabalha no Centro Nordestino de Medicina Popular (CNMP), uma ong com sede na cidade de Olinda, em Pernambuco, e que atua em toda a região metropolitana do Recife, atendendo e orientando a população carente.

Para dar base a este conhecimento popular, os integrantes do CNMP recorrem constantemente a pesquisas e bibliografias sobre plantas medicinais com eficácia comprovada. Além disso, oferecem à população carente oficinas, palestras e cursos sobre o uso correto de plantas medicinais, suas utilidades nutricionais e políticas de saúde pública.

Diana Mores, enfermeira, especialista em epidemiologia e coordenadora executiva da entidade, conta que o trabalho com as plantas e ervas medicinais serve também para resgatar a auto-estima da população, “especialmente dos mais humildes” que, antes de conhecerem o centro, “tinham até vergonha de dizer que utilizavam plantas medicinais, porque a maioria dos médicos consultados por eles lhe diziam que só os medicamentos alopáticos é que curavam”. Por isso, o centro está “investindo na formação de pessoas para que elas entendam o que é cidadania e vejam onde é que podem exercê-la”.

Hoje, a principal colaboração financeira para a sobrevivência do CNMP vem de entidades e igrejas estrangeiras, como a Igreja Anglicana do Canadá, a Manos Unidas (ong espanhola) e a CCFD, entidade francesa católica que luta contra a fome e a pobreza pelo mundo.

O início, no bairro de Casa Amarela

As atividades do centro começaram entre os anos de 1979 e 1980, com a chegada ao Recife do clínico geral Celerino Carriconde, que sempre teve interesse voltado ao trabalho com plantas medicinais. Diana Mores, enfermeira chilena e mulher de Celerino, logo iria se juntar à equipe. Os primeiros trabalhos foram feitos no bairro de Casa Amarela, na periferia do Recife. Por meio do conselho de moradores do bairro, as equipes realizavam atividades diretas com a população de rua, orientando e discutindo problemas de saúde e suas possíveis soluções. Os trabalhos, na ocasião, eram diretamente vinculados às Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica, que forneciam o apoio e as bases da igreja para os trabalhos. Enquanto isso, a propaganda “boca-a-boca” entre as comunidades fazia com que as visitas fossem estendidas a outros lugares.

Nas visitas a novos bairros, os pesquisadores elaboravam questionários sobre os problemas de saúde e também sobre a situação que cada família vivia. “A idéia não era apenas receitar remédios, mas fortalecer a organização comunitária para que os próprios moradores pudessem reivindicar melhorias em seus bairros”, explica a coordenadora.

Doutores do povo’: troca de experiência com a população

Neste início, havia, em todas as comunidades, as figuras dos “doutores do povo”, com quem a população trocava experiências sobre plantas e ervas indicadas para determinados problemas de saúde. O apoio da Diocese de Olinda e Recife durou até 1988, quando dom Hélder Câmara foi substituído por Dom José Cardoso, e os projetos perderam um pouco do seu ritmo. Na época, de acordo com Diana, grande parte das organizações que trabalhavam em conjunto com a Igreja Católica acabou formando organizações não-governamentais para prosseguir com suas atividades. Era criado, então, o CNMP. “Queríamos continuar trabalhando, agora de maneira independente”, lembra Diana.

Hoje, a equipe é formada por uma enfermeira, uma pedagoga, uma agrônoma, uma educadora comunitária e uma farmacêutica, além de Diana e de Celerino. “As solicitações são muito maiores do que conseguimos cumprir”, afirma Diana. “Conseguir apoio governamental não é fácil. Tivemos uma verba da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) para fazer capacitação de fitoterapia em três municípios, mas foi bem difícil”, conta.

Farmácias vivas

> Os grupos acompanhados pelo CNMP possuem hortas de plantas medicinais. Cada comunidade tem uma pequena farmácia de manipulação, sob orientação de uma farmacêutica, onde são produzidos remédios e cosméticos para a venda local e sustento da própria comunidade. “Os moradores fazem feiras de saúde no bairro para divulgar os remédios produzidos. Mas os produtos não são vendidos em farmácias de classe média: tudo é utilizado entre a própria comunidade”, esclarece. A arrecadação, inclusive, serve para financiar outros trabalhos no bairro. <

Entre as doenças mais comuns tratadas nos bairros carentes hoje estão verminoses, diarréias, dores de estômago ou problemas de fígado. “Muitos problemas são causados porque as pessoas não se alimentam direito”, diz Diana. Por isso, o centro também realiza um trabalho de educação nutricional com oficinas, palestras e cartilhas publicadas pela própria entidade. Existe também material específico para o grande público e os agentes comunitários de saúde, que fornecem dicas sobre nutrição e identificação de plantas medicinais nas diferentes regiões pernambucanas. A ong é responsável ainda pela publicação do livro “Plantas Medicinais e Plantas Alimentícias”, cuja primeira edição, de 2.000 exemplares e custeada pela entidade, foi publicada em 1996 e está esgotada. Para auxiliar na orientação e divulgação do trabalho, a ong também publica o boletim bimestral “De Volta às Raízes”, com dicas e reportagens sobre alimentação, nutrição e remédios caseiros.

Cruzando fronteiras

Os programas de fitoterapia adotados em outros municípios carentes, sob supervisão do CNMP, tiveram bons resultados. “Fomos convidados para assessorar um trabalho em conjunto com a Universidade Federal de Pernambuco e a Jica (entidade do governo japonês; pronuncia-se Jaica) no município de Brejo da Madre de Deus, interior do Estado”, conta Diana. “O secretário de saúde do local nos disse que, com o uso de plantas medicinais, conseguiu utilizar apenas 35% do total da verba destinada à saúde”. Tal economia, segundo Diana, pode ser refletida em vários aspectos: os municípios ficam com verba sobrando para outros investimentos, e a população local pode comprar outros bens necessários, como comida e roupas.

Os trabalhos com a população nordestina também já renderam frutos para equipe: o Dr. Celerino, por exemplo, é constantemente chamado a prestar assessoria em outros Estados e municípios que querem adotar a fitoterapia na saúde pública. Atualmente, ele está fazendo oficinas e palestras em cidades do interior do Rio Grande do Sul, Estado onde a fitoterapia também foi adotada na política de saúde pública. Para Diana, o trabalho popular com fitoterapia ainda carece de especialização. “Quem quiser trabalhar com o povo tem que se preparar para tratar a pessoa, e não só a doença”, conclui.
Veja as plantas mais utilizadas pelo Centro Nordestino de Medicina Popular na região metropolitana do Recife (PE):

><><>Nome popular usado na região<><>< ><><>Nome científico<><><
><>Alcachofra<>< ><><>Vermonia condensata Baker<><><><
><>Aroeira<>< ><>Schinus terebinthifolius<><
><>Atipim<>< ><><>Petiveria alliacea L.<><><><
><>Barbatimão<>< ><>Stryphnodendron coriaceum<><
><>Capim Santo<>< ><><>Cymbopogun citratus (DC.) Stapf<><><><
><>Chambá<>< ><>Justicia pectoralis<><
><>Colônia<>< ><>Alpinia speciosa Shum<><
><>Confrei<>< ><><>Symphytum officinale L.<><><><
><>Corama<>< ><>Kalanchoe brasiliensis<><
><>Erva cidreira<>< ><>Lippia alba Mill<><
><>Espinho de Cigano<>< ><>Acanthospermum hipidum DC<><
><>Hortelã graúda<>< ><>Plectrantus amboiniais<><
><>Mastruz<>< ><><>Chenopodium ambrosioides<><><><
><>Pega-pinto<>< ><>Boerhavia hirsuta<><
><>Transagem<>< ><><>Plantago major L.<><><><

Para saber mais:
> Centro Nordestino de Medicina Popular
> Rua Cleto Campelo, 255, Bairro Novo, Olinda (PE)
> CEP: 53030-150
> Telefone: (81) 3439-5215 / Fax: (81) 3429-5215

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